Continuemos o comparativo, sem ser tendencioso, hein?
Design (arquitetura e construção)


Olhe bem para os dois carros. Qual lhe parece mais belo? Quem está mais adequado? Isso é a arquitetura do design. Entre no carro, olhe à sua volta. Abra o porta-malas, veja o espaço, os recortes laterais. Sinta como ele “torce” a carroceria a cada curva. Pense no efeito rolling. Você se sente seguro? Isso é a construção. Sendo assim, agrada-se gregos e loganos, ou melhor, troianos, desculpe. Afinal, o carro da Renault pode perder por um lado, mas ganhar por outro. Mas considere esta frase dita por Sérgio Habib, então diretor geral da Citroën do Brasil: ”Argentino é que compra carro bom, brasileiro primeiro vê se o carro é bonitinho”. Ele disse isso para se referir ao sucesso da Citroën no mercado argentino ser maior que por aqui. E eu retruquei. “Mas o C3 não é bonitinho?” E Habib emendou que “esse carro vende bem no mundo inteiro”. Vende-se o peixe de acordo com o papel que se tem para enrolá-lo, não?
Assim, à primeira vista, depois à segunda e até à décima, você achará o Voyage mais belo. Por quê? Pelo simples motivo de ele ter um desenho projetado e desenvolvido para o mundo capitalista do novo século. Enquanto isso, o Logan , apesar de ter sido lançado em 2004, foi desenhado pela romena Dacia. Esta infelizmente ainda traz nos traços artísticos a herança do período no qual ficou relegada aos caprichos da ex-URSS, dona da cortina de ferro que fechava os olhos de parte do leste europeu ao ocidente. Hoje ele é produzido em mercados marcados pelo apelo ao preço em vez da modernidade, como Marrocos, Colômbia, Irã, Rússia, Índia e a própria Romênia. Sim, sua plataforma é moderna, o Logan roda sobre a mesma estrutura que equipa o Nissan Micra e o Renault Modus (este sim um carrinho que nós merecíamos). Mas, por fora, ele é de doer.
Mas o fato é que… Bom, eu não vou falar. Mas meu amigo Fernando “Bocão” matou a charada quando me viu dirigindo o sedã. “Putz, esse carro parece aquele Fiat Prêmio que sua mãe tinha, lembra?”. Caí na risada, o convidei para entrar e mostrei que não era bem assim. Ele é muito melhor que o Premião Azul Florença. A vantagem é que ele nasceu para ser sedã, ao contrário do Voyage, que é derivado do Gol e ganhou uma traseira. Em suma, os traços do VW são bem mais atuais que os do Renault. Uma linha de cintura alta, que corre em linha ascendente da dianteria para a traseira. A impressão de frente baixa e traseira alta sugere certa esportividade até. Impossível de ver isso no Logan. O romeno-brasileiro é racional demais. Não passa emoção alguma. Tudo bem, alguém aqui vai jogar uma pedra dizendo que “ele falou que o Voyage ganhou porque acha mais bonito”. Tudo bem, eu e torcida da China. Apesar de achar a traseira do VW ”a cara” do Corsa Sedan, afirmo que basta ter um mínimo de bom senso para dizer qual é mais atual. Ou não?

Quanto à construção, o Logan se dá melhor, mas é por pouco. Ele é bem agradável de dirigir. Robusto, tem um conjunto de suspensão que agüenta firme o tranco do dia-a-dia. Passa sem transmitir a dureza de buracos e valetas. Não vai mal nas curvas, resultado da boa largura e do excelente entreeixos. A sensação do Voyage é que ele tem mais molejo, a carroceria “rola” mais nas curvas, sem ser “cremosa” demais como no Fiat Siena, por exemplo. É mais agradável de conduzir e também encara os buracos com tranquilidade.

Mas há ainda um outro lado. Quando você senta no Logan ou no Voyage, sente a diferença de atmosfera. A posição de guiar é inclinada, você dirige apoiado no volante, sensação igualmente tida no Chevrolet Classic e no Gol antigo, o G4, carros que compactuam o raciocínio de construção dos anos 1990. E isso independe das regulagens, que no Logan só existem para a altura do assento. Altura do volante? Profundidade? Nem como opcional. No Voyage, a primeira é de série e a segunda e a terceira custam R$ 405. Vale a pena pagar por isso.

Indo ao porta-malas, que faz parte da construção de um carro, nova vantagem para o Logan. Essa, um pouco maior. No compartimento dele (510 litros) cabem 30 litros de bagagem a mais (uma mochila média). No entanto, assim como no criticado Voyage, os braços responsáveis pela abertura são em “V”, invadindo o compartimento quando fechado.

A vantagem do Logan se estende quando nota-se a posição do estepe, mais adiantado do que no Voyage. Caso você tenha muita bagagem, não precisará tirar toda para remover o estepe. No VW sofrerá mais. Contudo, no Renault não há abertura interna da tampa. Sempre que precisar abrir terá de levar a chave. No Voyage isso é de série e ainda há a opção de um controle remoto na chave. E a tampa ergue-se sozinha.


No geral, vitória do Voyage.
Voyage 3 x 2 Logan
Segurança
Para quem achou que seria “mais do mesmo”, parabéns. Claro, porque segurança é uma só, como a sua vida também é. Faço minhas as palavras do piloto Ingo Hoffmann durante um curso de pilotagem o qual tive o prazer de realizar. Num dos exercícios fazia-se a frenagem, vindo a 80 km/h em piso molhado, com e sem ABS. A diferença era “apenas” um giro de 360º quando o equipamento estava desligado. “Deveria ser proibido vender carro sem ABS, isso beira a irresponsabilidade. A segurança ativa além de salvar a vida pode evitar o próprio acidente”, afirmava Ingo, contestando uma afirmação de que o ABS era menos importante que o air bag.
Vale dizer isso porque no Logan 1.6 8V não há a opção de freios com ABS. Ele traz como itens opcionais, de acordo com o www.renault.com.br, os seguintes itens: rodas de liga leve (R$ 660) e o Expression Pack (R$ 6 370), um pacote promocional que inclui direção hidráulica (R$ 1 800), ar-condicionado (R$ 3 560), travamento elétrico das portas com controle remoto e sistema CAR e a bolsa inflável apenas para o motorista (R$ 1 470). A bem da verdade ele tem boa visibilidade lateral e traseira, apesar dos retrovisores terem área menor que os do Voyage e repugnantemente servirem para os dois lados do carro. Isso mesmo, não há “retrovisor esquerdo”, por exemplo. A mesma peça se encaixa dos dois lados. Tudo bem, isso reduz os custos da produção e do carro, mas acho que não é dessa vertente “visionária” que precisamos.
Já o Voyage traz ambos os itens em seu portifólio. Mas o preço é bem salgado. O ABS custa R$ 3 010 e o airbag duplo, que terá de vir acompanhado de seu volante específico, sai por R$ 2 145. É caro, mas vale a pena pensar no outro dia. No mais do mesmo. No mais da sua vida. Com segurança, apesar dos R$ 5 155 desse “conjunto”, peque pelo excesso. Seguem abaixo os números do teste de frenagem, para que você mesmo comprove a diferença entre ter ou não ter o sistema anti-travamento.
Logan
60 km/h a 0 - 19,3 m
80km/h a 0 - 35,0 m
100 km/h a 0 - 58,8 m
Voyage
60 km/h a 0 - 14,7 m
80km/h a 0 - 25,2 m
100 km/h a 0 - 40,6 m
Vitória do Voyage
Voyage 4 x 2 Logan
Acabamento (inclui ergonomia e ruídos)
Este parece ser o maior alvo de críticas do Voyage. Ninguém gostou do formato, do desenho nem como os equipamentos estão dispostos no carro. É porque vocês não conhecem o Logan. Para começar, o Renault tem chicote elétrico central, o que acaba com qualquer forma decente de se projetar os botões dos vidros elétricos, desembaçador, ar-condicionado, faróis de milha (se houver), tudo num mesmo lugar. Esta versão não traz a opção de vidros elétricos atrás. É na manivela. Vale a ressalva de que no Voyage o motorista também tem de ir ao painel para acionar os vidros traseiros. Mas cada porta tem o seu botão respectivo.


Quanto ao acabamento do painel interno das portas, essas versões intermediárias se equivalem. Muito plástico e pouco tecido para o motorista. Ruins, só que no Logan o porta-objetos lateral é melhor posicionado. Ambos os tecidos dos bancos não são lá essas coisas, mas no Renault, os dianteiros são ligeiramente mais confortáveis, contudo são mais curtos que no do VW. Diferença de 1 cm tanto no dianteiro quanto no traseiro. Você nem percebe.

O Logan testado está com 12 500 km. E nas borrachas dos vidros traseiros (na parte inferior onde se junta à porta) estão onduladas, isso ou é fruto de um material com baixa qualidade ou o carro ficou exposto de sol a sol antes de chegar às nossas mãos. Alternativa A? No VW, a mesma borracha é mais espessa, sem ondulações, por enquanto. Ambos consoles centrais estão longe de serem elogiados. O acabamento é espartano e as entradas de ar redondas lembram o Celta (lançado em 2000), carro que não é exemplo de “beleza interior”. O painel de instrumentos do Voyage é melhor resolvido e seu i-System (apesar dos pesares elétricos) agrada mais aos olhos do que o letreiro de relógio digital (lembra do Timex Ironman?) que vem no “computador de bordo” do Logan. O Renault também peca pela extrema simplicidade do conjunto, todo preto e branco, sem contornos que evidenciem com clareza cada instrumento, além de ser mais profundo dentro da peça. No Voyage ele lhe parece mais claro, chama sua atenção. Não se pode esquecer de relatar um detalhe, que não parece, mas incomoda. Quando você acelera o Logan com a marcha engatada, a haste do câmbio vibra a ponto de se mexer. Situação que não se vê no VW.


Por fora, o acabamento do VW também é melhor. Repare nas fotos lá em cima como as emendas das portas são mais justas do que no Renault. Repare na largura da emenda entre a tampa do porta-malas de um e de outro. Esse é um trabalho duro de resolver depois do carro pronto. É claro que há certa tolerância milimétrica na produção, mas isso culmina em diferença no coeficiente de rigidez estrutural de um carro para o outro, na mesma linha de produção e, principalmente, no nível de ruído, uma vez que uma fenda mais larga causará mais atrito com o ar que passa e se infiltra por ela. Por falar nisso, eis os números do teste de nível de ruídos.
Logan (em decibéis)
Ponto Morto - 44,8 db
50 km/h em 3ª - 61,3 db
80m/h em 4ª - 66,8 db
100 km/h em 5ª - 69,5 db
Voyage (em decibéis)
Ponto Morto - 43,1 db
50 km/h em 3ª - 60,2 db
80m/h em 4ª - 63,4 db
100 km/h em 5ª - 68,4 db
Vitória do Voyage.
Voyage 5 x 2 Logan
Amanhã não haverá post, devido ao feriado do Natal. No dia 26 compararemos manutenção (cesta de peças), reparabilidade e custos (IPVA, seguro, preço).